Drogas e socialização - o papel da escola na prevenção e promoção de qualidade de vida sem drogas |
| Escrito por Flora Fernandes Lima* |
|
A adolescência é conceituada por PALACIOS E OLIVA (2002), como uma etapa de transição, um período psicossociológico entre a infância e a vida adulta do sujeito, fruto da organização da nossa sociedade tal como a conhecemos. Um dos fatores mais marcantes durante a adolescência é a busca dos jovens por um grupo que o defina. OLIVA (2004, p.357), aponta que
Segundo o mesmo autor há o risco de suscetibilidade à “pressão dos iguais” durante a adolescência, principalmente no início da mesma. O consumo de drogas é algo que se mostra presente em todas as sociedades, e de forma bastante incisiva na faixa de idade que corresponde à adolescência, TAVARES, BÉRIA, LIMA (2001); BRUSARELLO e SUREKI (2008); SUDBRACK e DALBOSCO (2005). O conceito de droga é dado pela OMS como qualquer substância que “abrange qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas produzindo alterações em seu funcionamento”. Segundo BRUSARELLO e SUREKI (2008), o consumo de drogas psicotrópicas, que sempre esteve presente no meio social, aumentou de forma considerável passando de uso ritualístico e em pequenas quantidades para produção, consumo e distribuição em grande escala. Tornou-se problema de saúde pública devido ás resultantes de seu uso abusivo, como alterações cognitivas e mudanças no comportamento global do sujeito. Para DÉA, SANTOS E ITAKURA (2002), o consumo de drogas por jovens é elevado quando comparado as outras faixas populacionais sendo que a adolescência e a idade adulta constituem-se como períodos de vulnerabilidade aumentada, uma espécie de “janela de risco”. Sendo assim uma atenção maior deve ser dada ao jovem e aos fatores que terminam por levar às condições que viabilizam contato deste com as drogas. O contexto das drogas
Campos (2001) define toxicomania como “estado de intoxicação periódico ou crônico, prejudicial ao indivíduo e à sociedade, causado pelo consumo repetido de uma droga, em que há incontrolável desejo ou necessidade de consumi-la e de aumentar a dose, levando a uma dependência psicológica e às vezes física.”(2001, p. 92). Nem todos os usuários de drogas estão no mesmo nível de dependência. Cavalcante apud Olivenstein (1997) classifica quatro níveis de usuários: Usuários recreativos - consumidores que fazem uso de maneira muito episódica e que não sofrem prejuízos no seu equilíbrio socioprofissional ou escolar, afetivo ou familiar Essa classificação é exclusiva para adolescentes e não pode ser considerada como permanente dado à personalidade ainda em estruturação, característica dessa faixa etária. Deve, no entanto, servir de alerta para os problemas que este jovem possa vir a estar passando, não necessariamente o consumo de drogas, possíveis expressões de dificuldades psíquicas ou mesmo familiares. As drogas mais consumidas são o álcool, o tabaco, a maconha, as anfetaminas e os barbitúricos. Dos contatos realizados com drogas o álcool mostra ser, de acordo com DÉA, SANTOS E ITAKURA apud CEBRID(2002), a substância entorpecente mais presente nas experiências dos jovens. Sendo que mais de 50% dos estudantes pesquisados na faixa de idade de 10 aos 12 anos já fizeram uso dessa droga. O consumo de drogas nessa faixa de idade teria conseqüências múltiplas, dentre elas prejuízo da cognição, capacidade de julgamento, do humor e das relações interpessoais, além do risco de dependência, superdosagem, acidentes, danos físicos e psicológicos e morte prematura. Além disso, as alterações da percepção e reações psicomotoras resultantes do uso da droga podem levar a acidentes fatais e ao suicídio. Somando-se a esses fatores existe ainda a possibilidade do aumento das possibilidades de envolvimento em crimes e prostituição para financiar o próprio hábito (GIUSTI, 2008). Os adolescentes toxicomaníacos estariam, conforme apontam MARQUES e CRUZ (2008), em mais riscos do que os já convencionalmente existentes em se tratando de adultos. As substâncias psicoativas aumentariam a probabilidade de acidentes e violência incidindo, de acordo com os autores, sobre o já fragilizado mecanismo de autopreservação desses sujeitos. Ainda segundo os autores o uso de drogas constitui “um grave problema de saúde pública, com sérias conseqüências pessoais e sociais no futuro dos jovens e de toda a sociedade”. Sendo assim a temática deve prioritariamente ser foco de discussões por parte dos pais e educadores bem como ser alvo de políticas públicas que visem trabalhar a situação. Processos de socialização e drogadiçãoFaz parte da Síndrome Normal da Adolescência (ABERATURY e KUOBEL, 1981), a tendência grupal do indivíduo na busca da identidade. Existe segundo os autores um processo de superidentificação em massa tornando-se por vezes muito difícil a separação da turma, dos caprichos ou modas em relação à vestimenta, costumes e preferências como um todo. Na adolescência há em geral a mudança de figuras de referência do círculo familiar para o grupo de amizades. Para os adolescentes com uma sustentação não adequada do projeto identificatório, a sensação de “vazio existencial” é constante. Este não poupará esforços na busca por “algo” que amenize sua instabilidade e insegurança, (TAKEUTI, 2002). A incidência do uso de drogas entre adolescentes é considerada alta quando comparada as outras faixas populacionais. Autores como Becker (2000), explicam esse fato fazendo referência ao contexto de geralmente difícil transição e busca de auto-afirmação e enquadramento com a nova identidade nascente. Dentre as experiências de descoberta as drogas quase sempre fazem presentes A vivência desse período se faz de maneira conflituosa e as pressões do meio ambiente mostram-se de maneira mais representativa. O ingresso no consumo de drogas aconteceria na maioria das vezes por influência dos colegas, (TAKEUTI, 2002). A busca dos amigos para fugir dos conflitos familiares e a sede por transgressões fariam parte do comportamento característico dessa faixa de idade. De acordo com RIBEIRO E TOROSSIAN et al (1998) “a adolescência é caracterizada como um período complexo no qual as drogas podem ser usadas, entre outras coisas, como um artifício virtual para catalisar a resolução dessas tarefas”. Sendo assim em nossa cultura, durante essa fase da vida é bastante comum que o jovem entre em contato com algum tipo de droga durante o processo de socialização que ocorre durante a adolescência. A aproximação dos jovens com as drogas se de forma considerável através de grupos. Os contatos sociais feitos dentro das escolas, muitas vezes, demarcam a presença de gangues na escola como uma constante e fazem dessa instituição uma das vias de acesso fácil dos adolescentes às drogas. (ABRAMANOVAY, 2002) Sendo assim, uma atenção maior sobre a forma como se dá o contato nesse contexto, bem como a busca por um maior entendimento sobre os problemas e dificuldades enfrentados pelos adolescentes precisa ser levada em conta para que se possa realizar um acompanhamento de jovens envolvidos em situações de risco com drogas. A escola, por ser um elemento de presença forte para os jovens e - juntamente com a família - responsável pela educação destes de forma global, tem as ferramentas necessárias para proporcionar prevenção do uso de drogas. Prevenção no contexto escolarCavalcante (1997) aponta que o trabalho com drogas pode vir a ser feito em três níveis - prevenção, repressão e tratamento. A prevenção divide-se em duas etapas: prevenção primária que procura desestimular a primeira experiência dos não iniciados e a prevenção secundária que busca prevenir o aprofundamento do uso experimental. A prevenção coloca-se, portanto como imperativo desse processo já que o tratamento de pessoas já em dependência é longo difícil, aleatório e caro. Quanto mais precoce, de preferência antes do contato do jovem com a mesma, maiores são as possibilidades de eficácia da mesma. Ela pode vir a seguir vários modelos: princípio moral (uso de drogas como algo condenável do ponto de vista ético e moral), amedrontamento (enfatiza aspectos negativos e perigosos das drogas), conhecimento científico (propõe fornecimento de informações de modo imparcial e científico), educação afetiva (modificação dos fatores predisponentes ao uso de drogas), estilo de vida saudável e pressão de grupo positiva (o grupo como fator de proteção do jovem contra as drogas). Quando se considera a prevenção no contexto escolar deve-se dar ênfase no investimento da formação de profissionais qualificados, bem treinados e habilidosos para lidar com as demandas da instituição. Deve também buscar envolver o corpo escolar inteiro e colocar o adolescente como participante ativo do processo de elaboração dos projetos utilizando linguagem acessível e escutando o que ele tem a dizer sobre sua realidade. Para SUDBRACK e DALBOSCO (2005), na impossibilidade de excluir as drogas do domínio social há que se trabalhar visando à construção de sujeitos mais preparados para enfrentar os problemas causados por elas. A prevenção entraria, portanto como parte da formação dos sujeitos dentro do ambiente escolar. As informações, como meio mais importante de prevenção, devem focar a qualidade de vida e não as drogas – produto - em si. Isso poderia surtir o efeito contrário, excitar a curiosidade dos adolescentes, tão ligado a situações desafiadoras. O processo de prevenção deve buscar abranger a qualidade de vida ligada aos hábitos dos adolescentes, englobando seus problemas e interesses (CAVALCANTE, 1997). O adequado enfrentamento dessas problemáticas exigiria políticas públicas que viabilizassem a construção de soluções que fossem colocados em contraponto com o “modelo do medo” e a “pedagogia do terror” que silenciam e excluem sem de fato proporcionar a devida formação de consciência relativa aos problemas aos quais as drogas podem estar ligadas. (SUDBRACK e DALBOSCO 2005) Ribeiro, Pergher e Torossian (2008) pontuam que se verifica na prática que as políticas de prevenção geralmente não fazem uso da capacidade de julgamento moral e espírito crítico do jovem e de modo geral repassam informações deturpadas e já definidas como certas. O jovem acaba sendo colocado numa posição de fragilidade e muitas de suas capacidades e possíveis contribuições vem a ser ignoradas. Dessa forma, os trabalhos realizados no sentido de evitar o envolvimento destes com as drogas acabam sendo desvalorizados e perdem muito nos seus objetivos finais. ConclusãoPode-se perceber a importância da criação e fortalecimento de grupos e laços no trabalho para prevenção do uso de drogas entre adolescentes. Como forma de buscar evitar o uso, no entanto costuma-se fazer uso de repressão e terror. Na maioria das vezes a abordagem realizada sob esse aspecto não é bem sucedida e tem ainda como efeito colateral o aumento no tráfico de drogas (CAVALCANTE, 1997) É papel do psicólogo escolar/educacional junto ao corpo discente da escola a elaboração, desenvolvimento e acompanhamento de projetos de prevenção ao uso de drogas. Deve ainda trabalhar junto a projetos que visem a construção de uma identidade pessoal (auto-estima, socialização, disciplina, organização) e participação social (conscientização de papéis sociais e cidadania responsável) (CASSINS, 2007). O trabalho deve ser realizado junto ao jovem buscando valorizar as nuances de seu comportamento e propiciar um ambiente favorável para que elabore os possíveis fatores relativos ao seu contexto social ou sua subjetividade que possam vir a influir na procura pelo uso de entorpecentes. Os grupos que geralmente servem como meio de iniciação do uso de drogas podem vir a ser revertidos favoravelmente e servirem como fator de segurança contra o uso de drogas. A informação acrescida da rede de segurança que a escola pode vir a proporcionar serve como prevenção primária e ultrapassa os muros da instituição e da simples educação. Esses elementos passam a ser essenciais na formação de sujeitos conscientes e ativos positivamente dentro da sociedade. Sobre o AutorFlora Fernandes Lima é membro-editora do Psicologado.com, acadêmica do 10º período de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí. Tem experiência na área de Psicologia hospitalar, membro do Laboratório de Psicanálise da Facime e NAPS (Núcleo de Avaliação Psicológica e Psicologia da Saúde). contato: :flora.flima@gmail.com
ReferênciasABERASTURY, Arminia. KNOBEL, Maurício. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas,1989. ABRAMOVAY, Maria das Graças Rua et alii.Violência nas Escolas. 2ª edição. Brasília: UNESCO, Instituto Ayrton Senna, UNAIDS, Banco Mundial, USAID, Fundação Ford, CONSED, UNDIME, 2002. BECKER, Daniel. O que é adolescência? 13ª edição. Coleção primeiros passos nº 139. São Paulo: Brasiliense, 2003. BRUSAMARELLO, Tatiana, SUREKI, Mariângela, BORRILE, Dayane et al. Consumo de drogas: concepções de familiares de estudantes em idade escolar. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.). [online]. fev. 2008, vol.4, no.1 [citado 02 Outubro 2008], p.00-00. Disponível em . ISSN 1806-6976. CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia da Adolescência. 18ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2001. CASSINS, Ana Maria et al. Manual de Psicologia escolar/educacional: Coletânea Conexãopsi – série técnica. CRP 07. Curitiba: Gráfica e Editora Unificado, 2007. CAVALCANTE, Antônio Mourão. Drogas: Esse barato sai caro: Os caminhos da prevenção. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre drogas) disponível em: < HYPERLINK "http://www.cebrid.epm.br/catalogo/"http://www.cebrid.epm.br/catalogo/> DEA, Hilda Regina Ferreira Dalla, SANTOS, Elcio Nogueira dos, ITAKURA, Erick et al. A inserção do psicólogo no trabalho de prevenção ao abuso de álcool e outras drogas. Psicol. cienc. prof., mar. 2004, vol.24, no.1, p.108-115. ISSN 1414-9893. GIUSTI, Jackeline S. Peculiaridades do uso de drogas entre adolescentes do sexo feminino. Disponível em: HYPERLINK "http://www.antidrogas.com.br/mostraartigo.php?c=500"http://www.antidrogas.com.br/mostraartigo.php?c=500. Acesso em: 09 dez 2008. MARQUES, Ana Cecília Petta Roselli; CRUZ, Marcelo S. O adolescente e o uso de drogas. Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, 2008 . Disponível em: . Acesso em: 02 2008. doi: 10.1590/S1516-44462000000600009. OLIVA, Alfredo. Desenvolvimento social durante a adolescência. COLL, César; MARCHESI, Álvaro; PALACIOS, Jesús. Desenvolvimento Psicológico e educação. Psicologia evolutiva. Vol. 1. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2004. PALACIOS, Jesus; OLIVA, Alfredo. A adolescência e seu significado evolutivo. COLL, César; MARCHESI, Álvaro; PALACIOS, Jesús. Desenvolvimento Psicológico e educação. Psicologia evolutiva. Vol. 1. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2004. RIBEIRO, Tatiana Weiss; PERGHER, Nicolau Kuckartz; TOROSSIAN, Sandra Djambolakdjian. Drogas e adolescência: uma análise da ideologia presente na mídia escrita destinada ao grande público. Psicol. Reflex. Crit. , Porto Alegre, v. 11, n. 3, 1998 . Disponível em: . Acesso em: 27 2008. doi: 10.1590/S0102-79721998000300003. SUDBRACK, Maria Fátima Olivier. Adolescentes e drogas no contexto da escola. In Salto para o futuro – temas contemporâneos. Ano XVIII boletim 09 – Junho de 2008. TV Escola. SUDBRACK, Maria Fátima Olivier and DALBOSCO, Carla. Escola como contexto de proteção: refletindo sobre o papel do educador na prevenção do uso indevido de drogas. In: SIMPOSIO INTERNACIONAL DO ADOLESCENTE, 2., 2005, São Paulo. Disponível em: . Acess on: 27 Oct. 2008. TAVARES, Beatriz Franck; BERIA, Jorge Umberto; LIMA, Maurício Silva de. Drug use prevalence and school performance among teenagers. Rev. Saúde Pública , São Paulo, v. 35, n. 2, 2001 . Disponível em: . Acesso em: 02 Oct 2008. doi: 10.1590/S0034-89102001000200008. TAKEUTI, Norma Missae. No outro lado do espelho: A fratura social e as pulsões juvenis. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
|



A toxicomania é um fenômeno de origem múltipla resultante do encontro do sujeito com o produto de um determinado contexto sócio-histórico, ou seja, as causas para sua ocorrência não devem ser legadas exclusivamente ao próprio indivíduo ou ao seu contexto. Deve-se levar em consideração também que nem todas as formas de consumo de produtos tóxicos não devem ser necessariamente rotuladas como toxicomanias (CAVALCANTE, 1997).